Religião, tolerância e humanidade
A palavra religião deriva do termo latim “religare” que significa o mesmo que ‘re-ligação’, não necessariamente a um deus específico, mas religa o ser humano aos aspectos metafísicos, que estão além da matéria física, que ultrapassam o entendimento humano, algo que resumidamente podemos chamar de transcendental.

O mundo abriga sete bilhões de seres humanos, tornando-se um grande palco no qual se apresentam inúmeras formas de cultos e celebrações religiosas às mais variadas entidades, ideologias e/ou deuses. Há também aqueles que optam por acreditar em nada ou, ainda, acreditam que são autossuficientes e estão acima além de qualquer processo religioso.
Independente dessa diversidade religiosa no mundo, sabemos que a maioria das religiões assemelham-se por possuírem, em essência, objetivos comuns: paz, amor, salvação da alma, respeito ao próximo, crença na vida eterna e outros elementos similares.
Somos tão parecidos na forma de representar o transcendente, então por que brigamos, excluímos e não respeitamos a vontade alheia em escolher a própria crença e/ou religião? Há vezes em que nem queremos tocar no assunto.
No ano de 1763, aproximadamente, o filósofo francês Voltaire escreveu o célebre Tratado sobre a Tolerância, obra na qual critica sistematicamente o conservadorismo radical e a intolerância religiosa que, segundo ele, é responsável por retirar das pessoas a liberdade de escolha.
Assim como Voltaire, vamos nos voltar a quem acreditamos que possa nos ouvir. Vamos pedir por mais Tolerância Religiosa:
“Não é mais aos homens que me dirijo. É a você, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos: Que os erros agarrados à nossa natureza não sejam motivo de nossas calamidades. Você não nos deu coração para nos odiarmos nem mãos para nos enforcarmos. Faça com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida penosa e passageira. Que as pequenas diferenças entre as vestimentas que cobrem nossos corpos, entre nossos costumes ridículos, entre nossas leis imperfeitas e nossas opiniões insensatas não sejam sinais de ódio e perseguição. Que aqueles que acendem velas em pleno dia para te celebrar, suportem os que se contentam com a luz do sol. Que os que cobrem suas roupas com um manto branco para dizer que é preciso te amar, não detestem os que dizem a mesma coisa sob um manto negro. Que aqueles que dominam uma pequena parte desse mundo, e que possuem algum dinheiro, desfrutem sem orgulho do que chamam poder e riqueza e que os outros não os vejam com inveja, mesmo porque Você sabe que não há nessas vaidades nem o que invejar nem do que se orgulhar. Que eles tenham horror à tirania exercida sobre as almas, como também execrem os que exploram a força do trabalho. Se os flagelos da guerra são inevitáveis, não nos violentemos em nome da paz. Que possam todos os homens se lembrar que eles são irmãos!”
Temos garantia Constitucional para o livre exercício de culto religioso de qualquer natureza (na forma da lei), pois encontramos no artigo 5º e inciso VI: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”.
Outra garantia que o texto Constitucional traz é a declaração de que o Estado Brasileiro é laico, ou seja, que não possui religião oficial, que não está a serviço de determinado seguimento religioso mas do conjunto de pessoas que formam a República Federativa do Brasil. No art. 19 temos “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios”, e no inciso I “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”.
Além da Constituição Federal, temos a Declaração Universal dos Direitos Humanos em seu artigo XVII: “Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos”.
Embora a transcrição acima tenha sido escrita a mais de 200 anos, continua atual em nossos dias.
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