13 out 2011 { 11:49 }

A campanha da Hope, mulheres e entrelinhas

A Hope, marca de moda íntima (uma das pioneiras no Brasil) lançou e veiculou nos últimos dias a campanha “HOPE ensina”, com o apelo “você é brasileira, use seu charme”, apresentado pela modelo Gisele Bündchen. O governo pediu a suspensão do comercial.

Com diversas reações contràrias à campanha, a empresa divulgou nota explicando que não houve intenção de desrespeitar clientes. Pelo contrário, a empresa declarou seu desejo de reafirmar a beleza da mulher brasileira, que é conhecida mundialmente. Na perspectiva da campanha, tal argumento deve ser usado pelas mulheres para aumentar seu poder de convencimento.

Culturalmente, o macho homem é educado para usar a razão e o conhecimento, transformando sua realidade através dessas habilidades. Por muito tempo, o sexo masculino homem foi o único provedor da família, ocupou as melhores funções nas empresas e se destacou com relevância nas instituições religiosas e de classe. Em suma, reinava de forma soberana.

Ainda é possível dizer que o homem é forte, sedutor, inteligente, articulado e voltado para as questões que movem a sociedade!

No outro lado do planeta da esfera, a mulher foi culturalmente educada para usar o corpo, seduzir com a beleza e, sabendo disso, a publicidade de moda investe pesado nesse propósito.

A mulher, enquanto objeto de desejo masculino, não se ocupa com tarefas intelectuais. Por muito tempo, as mulheres não eram reconhecidas por suas capacidades intelectuais mas por atributos físicos e suas ligações com um determinado homem. Ou seja, ela não tinha história. E por que a tal “mulher ideal” é magra, alta, possivelmente loira, sexy, desejável, estereotipada como um item de consumo?

Não é fato isolado nem desconhecido que a mulher travou ao longo da história uma intensa revolução contra tais paradigmas machistas. Nada foi concedido, tudo foi retirado à força do domínio masculino. As variações disso são vistas no mundo de hoje.

Justamente por isso é que a propaganda da HOPE utilizou do poder simbólico, do imaginário presente em nossa sociedade, para fazer sua campanha de extremo mau gosto, devolvendo a mulher para a mesma condição de antes. Ora, é fato que faz tempo que as mulheres são provedoras de lares, empresárias, intelectuais e precursoras de uma nova sociedade. Infelizmente, sob a perspectiva em questão, ainda querem transformá-las novamente dependentes dos homens, como se a estética o corpo ainda fosse a única forma de acessar o domínio masculino e legitimá-las diante do poder econômico primado eterno do homem.

No final das contas, ao ver campanhas como essa, percebo que o interdito do discurso é o mesmo: manter a mulher na servidão, sem voz e usando o corpo como possibilidade de acesso à vida social. Nesse aspecto, a mulher não deseja, não tem vontade. Ela é objeto de desejo, conquista e disputa. Lamentável!

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