30 nov 2010 { 07:42 }

Invasão de cérebros no cinema e o futuro de nossas escolhas

A New Scientist publicou uma matéria interessante sobre neurocinemática, uma técnica que propõe-se a ajudar a indústria a criar filmes mais emocionantes.

Para saber se as reações emocionais aos filmes estão acontecendo da maneira desejada, a técnica consiste em usar um scanner de cérebro fMRI (que cria imagens por ressonância magnética). Em vez de pedir a opinião dos espectadores, é possível ir direto ao cérebro deles para descobrir o veredito. Essa nova estratégia está se tornando conhecida na indústria cinematográfica e pode, no futuro, colaborar para vários fatores.

Separei algumas possibilidades que merecem atenção:

1. Através da neurocinemática, saber quais áreas do cérebro são ativadas quando se vê um ator ou atriz principal poderia ajudar em futuras decisões sobre quem vai formar o elenco.

2. A neurocinemática pode revolucionar a maneira de produzir filmes, contribuindo não para substituir os diretores mas para medir o impacto do que eles fizeram (métricas para premiações, bilheterias, etc.).

3. A neurocinemática pode ser usada para modificar a maneira pela qual é definida a faixa etária recomendada para assistir aos filmes.

4. As varreduras cerebrais ajudariam não apenas a indústria cinematográfica como também os publicitários. A atividade cerebral vista numa pessoa com intenção de compra é a máxima do neuromarketing. Até hoje, ninguém conseguiu ver isso mas é o que todos querem, afinal, a sociedade é capitalista.

5. Anúncios publicitários poderiam ser criados para disparar um determinado padrão de atividade e persuadir os consumidores a comprar. Entretanto, uma preocupação evidente é a de que o neuromarketing possa controlar hábitos de compras e, por que não, até outros comportamentos. Todavia, esta possibilidade não é cogitada pelos especialistas.

“Neuroquê?”

Neurocinemática é um termo criado por Uri Hasson, da Universidade de Princeton, um dos pioneiros a pesquisar como o cérebro responde aos filmes. Sua equipe procurou semelhanças nas respostas cerebrais de um grupo de espectadores que assistiam a diferentes tipos de filmes. Enquanto os voluntários assistiam a uma parte de ‘Bang! You’re Dead’ (Bang! Você Está Morto), de Alfred Hitchcock, por exemplo, eles descobriram que cerca de 65% do córtex frontal – a parte do cérebro envolvida com atenção e percepção – respondia da mesma maneira em todos os espectadores. Apenas 18% da área do córtex mostrou resposta similar quando os participantes assistiam a uma gravação de formato mais livre.

Segundo Hasson, isso indica o quanto de controle o diretor tem sobre a experiência da audiência.

Um detalhe mais interessante: Alguns cineastas estão buscando o oposto – deixar o filme aberto para interpretação. A equipe de Hasson também analisou os efeitos de embaralhar a ordem de apresentação das cenas. Com isso, o grupo analisou correlações em padrões cerebrais em dois grupos: um que assistia à versão normal do filme e outro que assistia ao filme com as cenas fora de ordem. Em outras palavras, o uso de técnica semelhante poderia ajudar editores de filmes (a parte que me toca) a testar quão eficientes são os diferentes tipos de edição para que a audiência compreenda o filme.

Ainda que as empresas comerciais mantenham detalhes da tecnologia em segredo, a área cresce rapidamente. “A agência reguladora de marketing nos Estados Unidos está definindo padrões para a regulamentação da área e uma consultoria de qualidade”, afirma Ron Wright, da Sands Research, empresa especialista em neuromarketing.

Pelo que vejo, o livre arbítrio do ser humano caminha por rumos oscilantes. Enquanto fascinante não custa questionar se, nesse futuro neurocinemático, as escolhas poderão ser chamadas plenamente de “nossas” (livres de qualquer estímulo) ou serão o resultado de conceitos, ideias e comportamentos pré-moldados nas mãos do consumismo. Quem viver verá…

Via Info (edição 297, págs. 84 a 86)
Crédito das fotos: Nasa HQ Foto, Jonathan Harford e New Scientist

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2 Comments + Add Comment

  • [...] Deixo para você (através de comentários) o questionamento sobre privacidade, abundância de dados pessoais e o futuro de tudo isso. [...]

  • Vou ficar até controlando minhas "emoções", ou melhor, expressões quando for ao cinema, rsrs.

    É uma pesquisa interessante e deve prosseguir, no entanto, acredito isto nos leva à robotização da coisa mais humana existente: a arte. Pois o cinema, para mim, é, antes de tudo e apesar da publicidade e do marketing terem se apropriado dele, uma forma de expressão. Portanto, arte.

    Como a música, o teatro, a literatura, também o cinema é media de expressão do artista (diretor, ator, produtor, figurinista…) e o público não deve somente ser agradado, mas sim prestigiar o que foi produzido ali. As melhores produções são as mais criativas, as diferentes. Talvez este processo enquadre um modo de fazer cinema nada artístico, e dai nem precisaremos mais de tantos recursos humanos, mas sim tecnológicos, para programar tudo.

    Acho que estou na contramão, mas quando vou ao cinema, quero ver o que o cara que produziu aquilo quer me falar e não puramente para me divertir e ser surpreendido por uma técnica e pá..

    Mas enfim, ótimo texto [mais uma vez] e mantendo seus leitores/seguidores atualizados.

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